Planejamento patrimonial familiar é organizar, em vida, como o patrimônio da família será administrado e transmitido. Não é um instrumento só de grandes fortunas: qualquer pessoa com um imóvel, uma empresa ou uma família recomposta ganha ao decidir isso enquanto pode decidir — em vez de deixar a definição para um inventário litigioso ou para uma partilha de divórcio.

A vantagem central é de tempo e de conflito. Um inventário judicial pode levar anos e consumir uma fatia relevante do espólio; uma partilha de empresa familiar em processo de divórcio pode paralisar a operação. O planejamento antecipa essas decisões enquanto ainda há acordo possível entre as partes.

O que o planejamento patrimonial resolve

Os instrumentos disponíveis

Instrumento Para que serve Ponto de atenção
Doação com reserva de usufruto Transfere a nua-propriedade aos herdeiros e mantém com o doador o uso e os frutos do bem enquanto viver. Não pode ultrapassar a parte disponível do patrimônio (art. 549 do Código Civil) e exige o consentimento dos demais descendentes quando feita a um deles (art. 496).
Testamento Dispõe sobre a parte disponível, nomeia inventariante e tutor, e reconhece filhos. Metade do patrimônio é legítima dos herdeiros necessários (art. 1.846) e não pode ser destinada livremente.
Holding familiar Sociedade que concentra os bens da família; os herdeiros recebem quotas em vez de imóveis, e o acordo de sócios regula a saída, a venda e a sucessão. Só faz sentido a partir de certo volume de patrimônio; exige contabilidade, custo de manutenção e propósito negocial real.
Pacto antenupcial e contrato de convivência Define o regime de bens antes do casamento ou durante a união estável. O pacto antenupcial exige escritura pública e registro; sem ele, vale a comunhão parcial.
Acordo de sócios Regula o que acontece com as quotas em caso de divórcio, morte ou saída de um sócio. É o instrumento que mantém a empresa fora da mesa de negociação do divórcio.
Seguro de vida Gera liquidez imediata para os herdeiros, fora do inventário. O capital segurado não integra a herança (art. 794 do Código Civil).

Os limites que a lei impõe

Vale ser direto sobre o que não é possível, porque promessas de “blindagem total” costumam terminar em anulação.

Planejamento patrimonial legítimo é organização antecipada, feita com transparência e com propósito. O que estiver fora disso tende a ser desfeito.

Empresa familiar: o ponto mais sensível

Quando um dos cônjuges é sócio de uma empresa, o regime de bens define se as quotas — ou apenas os frutos delas — entram na partilha. No regime de comunhão parcial, quotas adquiridas na constância do casamento se comunicam, e o divórcio pode trazer o ex-cônjuge para dentro da sociedade ou obrigar a uma apuração de haveres que descapitaliza a empresa.

Os caminhos mais usados para evitar isso são o pacto antenupcial, o acordo de sócios com cláusula de exclusão do cônjuge da administração e regra clara de apuração, e a reorganização societária feita antes — e não durante — o conflito.

Sobre o tema, veja os artigos Como proteger empresas familiares durante um divórcio e Partilha de investimentos e ações.

ITCMD em São Paulo

O ITCMD é o imposto estadual que incide sobre doações e sobre a transmissão por morte. Em São Paulo, é regido pela Lei estadual nº 10.705/2000, e a Emenda Constitucional nº 132/2023 determinou que os estados adotem alíquotas progressivas em razão do valor transmitido.

Isso muda a conta do planejamento: transmissões antecipadas e escalonadas passam a ter peso diferente de uma transmissão única e concentrada. As alíquotas e as regras de progressividade dependem da legislação paulista vigente no momento da operação, e devem ser conferidas caso a caso — inclusive com o apoio de um contador.

Como funciona o trabalho

  1. Levantamento. Mapeamento de bens, dívidas, participações societárias, regime de bens e composição familiar.
  2. Diagnóstico. Identificação dos pontos de risco — o que hoje iria a inventário, o que se comunicaria num divórcio, o que travaria a empresa.
  3. Desenho. Escolha dos instrumentos adequados ao caso, com estimativa de custo tributário e cartorário de cada alternativa.
  4. Alinhamento familiar. Conversa com as partes envolvidas, porque planejamento imposto de cima tende a virar litígio depois.
  5. Execução. Lavratura de escrituras, alterações societárias, registros e averbações.
  6. Revisão periódica. Casamento, divórcio, nascimento, falecimento, venda de bem e mudança de legislação pedem ajuste.

Documentos necessários

Documento Para quê
RG, CPF e certidão de casamento com averbações Qualificação e verificação do regime de bens
Pacto antenupcial ou contrato de convivência, se houver Define o que se comunica
Matrículas atualizadas dos imóveis Confirma titularidade e ônus
Contrato social e alterações Participações societárias e regras de saída
Extratos de investimentos e previdência privada Composição do patrimônio financeiro
Declaração de imposto de renda Visão consolidada de bens e dívidas
Certidões de nascimento dos filhos Identificação dos herdeiros necessários

Prazos e custos

Etapa Prazo estimado Custos envolvidos
Diagnóstico e desenho da estrutura 3 a 8 semanas Honorários
Doação com reserva de usufruto 4 a 10 semanas ITCMD + emolumentos + registro + honorários
Testamento público 2 a 4 semanas Emolumentos + honorários
Constituição de holding familiar 2 a 6 meses ITCMD/ITBI conforme o caso + junta comercial + contador + honorários

São estimativas, que variam conforme o volume de bens, o número de envolvidos e a necessidade de regularizações prévias. Os honorários são definidos por escrito antes de qualquer providência, observada a Tabela de Honorários da OAB/SP.

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Veja também: Inventário e partilha · Como não dividir bens em uma separação · Todas as especialidades

Perguntas frequentes sobre planejamento patrimonial

É possível deixar todo o patrimônio para uma só pessoa?

Não, havendo herdeiros necessários. Metade do patrimônio é a legítima e pertence por lei a descendentes, ascendentes e cônjuge (art. 1.846 do Código Civil). O planejamento organiza a parte disponível e a forma de transmitir, mas não elimina a legítima.

Doar bens em vida evita o inventário?

Reduz muito o que sobra para inventariar, mas exige cuidado. A doação a descendente é, em regra, adiantamento da legítima e deve ser trazida à colação (art. 2.002 do Código Civil). E a doação que excede a parte disponível é nula no excesso (art. 549).

O que é doação com reserva de usufruto?

É a transferência da nua-propriedade do bem aos herdeiros, mantendo com o doador o direito de usar o bem e de receber seus frutos enquanto viver. Antecipa a sucessão sem que o titular perca o controle e a renda do patrimônio.

Holding familiar vale a pena para qualquer família?

Não. A holding faz sentido a partir de certo volume de patrimônio, porque envolve custo de constituição, contabilidade e manutenção. Estruturas sem propósito negocial real e criadas apenas para ocultar bens tendem a ser desconsideradas.

O planejamento patrimonial protege bens contra dívidas?

Não retroativamente. Transferir patrimônio para escapar de dívidas já existentes configura fraude contra credores ou fraude à execução, e o ato pode ser anulado. Planejamento legítimo é organização antecipada e transparente.

O que muda no ITCMD com a Emenda Constitucional 132/2023?

A emenda determinou que os estados adotem alíquotas progressivas em razão do valor transmitido. Isso altera a conta entre transmitir de uma só vez ou de forma escalonada. As alíquotas e regras aplicáveis dependem da legislação paulista vigente no momento da operação.

Cada caso tem particularidades. Para uma orientação sobre a sua situação, fale com a Dra. Camila Chagas pelo WhatsApp.

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